Minha livraria Kairós

Kairós Professores RelatosUNOi 5 de abril de 2017

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Minha primeira livraria ficava na Paulista, quase onde a avenida se encontra com a Angélica. Era bem pequena e chamava-se Kairós. Eu não era dona dela, é claro, era mais o contrário. Eu pertencia àquela livraria. Era lá que experimentava pela primeira vez o gosto de passear muito tempo entre prateleiras e escolher o que levar para casa. Na época eu estava no primeiro emprego, recebia os primeiros salários e sou do modelo que é capturado com facilidade pelo que está escrito, que aprende e se emociona assim.

Lembro bem do dono, era magro, meio curvado, bem mais velho do que eu e tinha incríveis olhos tristes. Houve um período em que havia outra vendedora, e só. Não havia mais ninguém. Um dia, vaguei pela livraria, nada me atraiu e me vi fuçando em uma dessas estantes metálicas giratórias usadas para livros de bolso. Eram todos de uma editora espanhola, a Bruguera, que hoje não existe mais. Folheei um, folheei outro, lembro da sensação de não saber por onde começar; não sabia quem eram os autores, não havia ouvido falar daquelas pessoas.

O dono, me vendo um tanto perdida, veio ajudar. Lembro dele me perguntar o que eu lia, do que gostava, quais eram meus interesses na vida. Depois de um tempinho de conversa, ele puxou da estante um volume dos diários da Anaïs Nin, nem era o primeiro volume, que estava em falta, e me disse acho que você vai gostar desse. Peguei o livrinho nas mãos, na capa uma foto de uma mulher, abri, li uns trechos, gostei, paguei e levei o livrinho para casa.

Fiquei completamente encantada por aquela vida e por tudo o que a cercava. Por causa daquele livro, me interessei por Henry Miller e Lawrence Durrell e li maravilhas escritas por eles, ouvi falar em Artaud, nos poetas beatniks, em Buñuel, comecei a pensar mais um pouco no que significava ser mulher, fui parar em Simone de Beauvoir. Comprei todos os diários da Anaïs Nin publicados por aquela editora. Um deles achei em uma livraria do Panamá; o último volume foi encontrado em uma livraria de Santiago, muitos anos depois. Li na ordem em que apareceram – primeiro o volume II, depois o IV, e assim por diante.

Há outra pessoa oculta nessa história e que foi a responsável por eu ser capaz de ler espanhol naquela época, minha mãe. Quando eu era adolescente, ela, que sabia a língua, foi me ensinando à medida em que eu tentava ler tirinhas da Mafalda. Acho que nunca sentou comigo para me ensinar nada. Apenas respondia minhas perguntas e contava a estrutura essencial da língua – os pronomes, os números, os dias da semana, as palavras que eu não conseguia compreender por associação com o português ou pelo contexto. Brincava de falar comigo em espanhol aquele kit mínimo de viajante, as palavras mágicas de gentileza, os nomes das comidas.

Por que estou contando essa história toda em um blog sobre educação? Porque considero aquele livreiro um dos meus professores inesquecíveis, e eles não foram muitos. Ele me escutou, descobriu o que me interessava e só depois sugeriu algo. Conto a história porque ter aprendido a ler espanhol dessa maneira ainda hoje me parece estranho. Era quase um jogo, movido apenas pelo desejo de aprender algo e deu certo. Quando penso no que esses dois professores me deram, acho assombroso.

Gosto de pensar que é isso que o professor pode ser, aquele que faz a mediação entre as possibilidades existentes e os alunos. Mas hoje em dia tem o Google e a internet, você pode estar pensando. Sim, e é lindo que seja assim, mas é impossível procurar o que não sabemos existir. Depois que a paixão encontra seu objeto, aí sim, a busca pode se tornar infinita e os links viram portas e mais portas. Depois do primeiro livro, eu achei todo o resto que me interessou sozinha, mas não sei se encontraria o início sem ajuda.

Já vi acontecer outras vezes esse encontro. Meu filho, que é do tipo ligado em games e animês, teve um professor de língua portuguesa que apontou possibilidades fora do currículo tradicional que o levaram a ler encantado alguns livros, embora ele nunca tenha tido paciência para ler, por exemplo, José de Alencar.

Todas essas histórias porque penso muito no que um professor aberto ao tempo e aos interesses dos alunos, trabalhando em uma escola que compreende como isso se dá, pode conseguir. Para usar a terminologia que ouvimos tanto no Estação REDEi, em Sauipe: não é apenas no tempo de Chronos que a aprendizagem acontece. Muitas vezes é em Kairós, esse tempo com qualidade, em que a guarda está baixa e o coração aberto, que se abrem novos mundos; e muitos alguns desses novos mundos são os que irão permanecer essenciais durante toda a vida.

Inês Pinheiro Mendonça

Inês Pinheiro Mendonça

Acha um privilégio conviver com pessoas que desestabilizam as certezas que ela tem. Além disso, pode ler, escrever, pesquisar e gargalhar no trabalho. Deu a sorte de ter tido isso como jornalista, e continua a ter como editora.

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